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Revigorado por Emílio Fontana Filho
Publicado em 14/04/2010 - Emílio Fontana Filho
Os anos passam... já são muitos, você sentindo tudo mais fraco. Os ossos pesam, as articulações rangem, a disposição já não é mais a mesma. Tem dias em que você não tem a menor vontade de sair da cama. É ou não é? E pra isso não é necessário ter mais de meio século. Tem gente que com duas ou três décadas, a máquina já esganando, já está pifando. Mas é o negócio. Quando se ama de fato o que faz, você ganha um beijo de bom dia da vida, como se fosse contemplado por um bônus especial de Deus.
Quando abro os olhos de manhã e lembro que nas últimas horas tudo era sonho (ou pesadelo) e que o real começa na primeira xícara de café, vejo que sou abençoado pelo destino.
A possibilidade de passar o dia ao lado dos meus pacientes de quatro patas, que acabam virando meus melhores amigos e confidentes, é um privilégio para poucos. Irmãos Árabes, Quarto de Milhas, Appaloosas, me cercam para trocarmos experiências e energia.
Pessoas como eu e você, que está lendo esta crônica, tivemos o dom de perceber que a vida nos oferece muito mais que nossas camisas bem engomadas, nossas gravatas, nossos sapatos reluzentes e nosso carro limpinho.
Pessoas como nós que gostamos do contato com a terra e com os animais suados, percebemos que esta proximidade com a natureza não tem preço.
Com enorme felicidade percebemos que pertencemos a uma categoria de homens de mulheres que preferem as calças jeans desbotadas, as botinas sujas de barro, chapéus e bonés com poeira de estrada e cheiro de bicho.
Só os apaixonados como nos podem entrar numa cocheira, sentir o cheiro de bosta de cavalo e dizer – que delícia! O contato diário com os cavalos, nos despem das frescuras peculiares dos almofadinha. O suor eqüino impregna a roupa e a alma de todos nós.
Na hora “do pega”, seja girando um tambor, voando entre balizas ou rodopiando num perfeito spin, sentimos a força do nosso contato.
Ás vezes, me pego conversando com os cavalos nas cocheiras quando estou sozinho ...quem vê pensa que sou louco, mas posso garantir que é uma loucura saudável. Cavalos são ótimos conselheiros. Quantas e quantas vezes em que eu estava hiper, mega tenso, uma pilha de nervos, a ponto de explodir, fui salvo por um cavalo. Só pelo fato de conversar baixinho acariciar o pelo de qualquer cavalo, feio, bonito, novo ou velho, eu me revigoro. Revigorar é a palavra. Ao simples contato com este mágico ser de quatro patas, meus batimentos cardíacos diminuem, minha respiração se aprofunda. Acalmando um cavalo através de um carinho quem se acalma sou eu. Um dia para quem nunca tentou esta forma de relaxamento mental e corporal: toque, acaricie, abrace sem pudor, sem escrúpulos, sem ser ridículo...sinta a paz e desfrute o momento ímpar que este contato lhe proporciona.
As ondas alfas do eqüino parece que te envolvem e te forçam a entrar numa freqüência mais baixa e, portanto, mas relaxante. Quem não tentou, vale à pena. Concluindo. O que eu quero dizer a todos nesta crônica é que este maravilhoso ser vivo a que demos o nome de “cavalo”, além de nos dar muito prazer quando nos leva a vitória, nos leva ao pódio, guarda uma freqüência mental terapêutica que podemos desfrutar mais amiúde e profundamente.
Se você é um horseman, em qualquer ponto da pirâmide que esteja, usufrua do bem-estar do convívio com estes animais. Agradeça todos os dias por passar a maior parte do tempo ao lado de uma das mais sagradas fantásticas espécies da natureza. Não deixe só se plugar no dinheiro, na fama, no glamour das superficialidades humanas, Curta o contato, a energia, a união, o lado divino do bicho. Sendo assim... O cavalo que existe em mim cumprimenta o cavalo que existe em você. “Anamastê”!
*Texto cedido pela Revista Horse nr. 20 - pg.58 - março 2010
Veterinário Formado pela Unesp Botucatu em 1982, dramaturgo e apaixonado por cavalos.